Curiosidades e Equívocos de Designações

Publicado em 12 mar, 2014


Curiosidades e Equívocos de Designações

          Este artigo reúne alguns termos, expressões e entendimentos frequentemente utilizados de forma incorreta, sem que, muitas vezes, percebamos suas implicações. Além de ajudar os profissionais na escolha correta da terminologia técnica, este artigo visa chamar a atenção para os equívocos decorrentes da utilização errônea de determinados verbetes, expressões, designações e interpretações, o que pode causar confusão e ser incompatível com a formação de engenheiro ou técnico.

          Além de ensinar que é certo, os professores poderiam incluir em suas aulas os erros mais frequentes, de forma a proporcionar ao aluno capacidade critica para o que ele encontrará no dia-a-dia profissional, que nem sempre será a expressão da verdade ou o estado-da-arte. É sabido que ao longo tempo um idioma sofre significativas alterações. No entanto, certos princípios devem ser preservados e observados na utilização diária e elaboração das palavras.

 

Metragem

          Neste caso, uma unidade de medida tem sido utilizada para designar uma grandeza dimensional. Considero esse o desvio mais recente (e incrível) de um verbete na aérea técnica.

          Se, por hipótese, considerarmos que o termo “metragem” é valido, então, por analogia, também seria correto dizer “cubagem”, “litragem”, “newtagem”, “kelvagem”, etc.

          Ao utilizar o termo metragem, a pessoa deseja se referir a qual dimensão: comprimento, largura, altura, área, profundidade, volume? Porque não designar de forma correta o que deseja? No caso de um apartamento, o correto é definir uma área 100m², por exemplo, acrescentado ainda se é área útil, privativa ou total.

Bitola (#)

          É correto designar um determinado condutor pela forma # 50 mm² (bitola cinquenta milímetros quadrados)? Quando os condutores eram designados por AWG (American Wire Gauge), utilizava-se de fato o termo bitola, que não representava nenhuma dimensão física do condutor, sendo preciso utilizar uma tabela para obter o diâmetro e a seção correspondentes. No entanto, os condutores elétricos tiveram sua fabricação alterada e passaram a ser designados pela seção (transversal) nominal, com unidade de medida e identificação em mm² (série métrica). Desta forma, o termo bitola passou a não fazer mais sentido.

          A decisão de utilizar o símbolo “#” na designação da seção de um condutor fica por conta de cada um, mais o termo “bitola” deve ser evitado.

 

Quadro ou Painel?

          É comum usar “painel elétrico” para se referir ao equipamento que contém barrametro, disjuntores e cabos. No entanto, o termo não existe na terminologia técnica oficial. E, a partir da definição de painel de controle, depreende-se que ele tenha outro tipo de aplicação: estrutura com uma parte plana vertical, na qual são instalados os dispositivos necessários ao controle e/ou supervisão de uma subestação ou usina. O painel de controle é comumente associado a uma mesa de controle, formando um conjunto unitário.

          A designação correta para se referir ao equipamento que contém barramento, disjuntores, fusíveis, chaves seccionadoras, etc., é quadro de distribuição, o qual é definido na terminologia oficial como o equipamento elétrico destinado a receber energia elétrica através de uma ou mais alimentações, e distribui-la a um ou mais circuitos, podendo também desempenhar funções de proteção, seccionamento, controle e/ou medição (NBR IEC 50 (826)). O equipamento também pode ser designado por “conjunto de manobra e controle de baixa tensão”, que, de acordo com a NBR IEC 60439-1, é a combinação de um ou mais dispositivos e equipamentos de manobra, controle, medição, sinalização, proteção, regulação, etc., em baixa tensão, completamente montados, com todas as interconexões internas elétricas e mecânicas e partes estruturais sob a responsabilidade do fabricante.

 

Sistema ou esquema TN?

          A designação de determinada configuração de aterramento, relacionado a situação do aterramento da alimentação e das massas de uma instalação, não deve ser feita por meio do termo “sistema”, mais sim por “esquema”.

          Esquema de aterramento e a representação gráfica de uma configuração de aterramento, baseada em um modelo definido na norma técnica. Já um sistema de aterramento é um conjunto de componentes e suas ligações para fazer o aterramento (NBR 5460). Desta forma, deve-se dizer esquema de aterramento TN-S, e não sistema de aterramento TN-S.

          Um exemplo de aplicação correta desses termos pode ser notado na seguinte frase: um sistema constituído por hastes de aço cobreada, conexões e cabos de cobre convenientemente instalados e enterrados, onde os condutores neutro e de proteção são conectados, configura um esquema de aterramento TN.

 

Elaborar ou executar um projeto?

          Se alguém deseja contratar um projeto de instalações elétricas, deve buscar quem o elabore ou o execute?

         Segundo os dicionários, elaborar é criar ou idealizar. Portanto, um projetista elabora um projeto, mais quem o executa é o instalador, que concretiza o que foi concebido pelo projetista.

          Se um projetista apresentar uma proposta de execução de um projeto o contratante leigo poderá entender que o orçamento inclui a execução propriamente dita, com material e mão-de-obra, o que não corresponde á verdade.

 

Projeto não é uma exigência?

          Certa vez, uma associação do setor publicou em seu boletim que projeto não era algo exigível. No entanto, é estabelecido no item 6.1.8.1 da NBR 5410 que “a instalação deve ser executada a partir de projeto especifico…”. Por seu turno, a Lei Federal n° 8666/1993 no art.7, 2°, inciso I, determina que “… as obras e os serviços somente poderão ser licitados quando houver projeto básico aprovado pela autoridade competente…”.

          Afora a questão da exigibilidade, o projeto é um documento imprescindível para a execução econômica e adequada para qualquer construção. Serve de base para orçamentos e racionalização de obras, para evitar retrabalhos e documentar o que precisa ser executado. Além disso, registra o trabalho do projetista e serve de base para a documentação e segurança do instalador, já na versão como construído (as built).

          Vale salientar que o eletricista que “decide” instalar um fio 1,5 mm² ou um disjuntor de 20 A faz um projeto. Mas, por não ser profissional legalmente habilitado (técnico ou engenheiro), ele infringe a legislação, se assim proceder. O eletricista tem a tarefa de executar a decisão tomada pelo profissional legalmente habilitado, mais não pode decidir o que deve ser instalado (ou seja, ele não deve projetar e especificar as instalações elétricas).

 

Fator de potência e a execução da instalação

          Certa vez, durante a entrega da reforma de uma pequena indústria que teria sua modalidade tarifaria alterada (de baixa tensão para média tensão), alertei a direção sobre a medição e cobrança de um novo item na conta de energia elétrica, relativo a grandeza denominada fator de potência.

          Como é de praxe, a concessionária concede três meses para eventuais ajustes. Desta forma, solicitei o envio das novas contas para avaliação e eventuais medidas para correção do fator de potência. Porém o instalador disse que não havia motivo para preocupação, uma vez que as instalações executadas por ele não tinham problemas de fator de potência. Pensei ter me expressado mal e, por isso, retomei a explicação, mais o instalador, que era engenheiro eletricista, insistiu na sua argumentação.

          Ou seja, ele desconhecia que o fator de potência de uma instalação elétrica nada tem a ver com a execução ou qualidade dos materiais empregados. É função única e exclusiva das características das cargas conectadas.

 

ART é certeza de trabalho correto?

          Na tentativa de valorizar a ART – Anotação de Responsabilidade Técnica, um informativo da área técnica publicou que ela garantia um trabalho correto. Embora a ART seja importante, não assegura a qualidade do serviço realizado e sua conformidade com as normas técnicas e legislação. Apenas indica que existe um profissional responsável pelo serviço. Trata-se de um documento emitido obrigatoriamente pelo responsável técnico quando da execução de qualquer atividade técnica, conforme estabelecido na Lei Federal n° 6496/77.

         No entanto, como ainda não existe um sistema informatizado nacional que controle a emissão de ARTs e impeça os desvios do não cumprimento á legislação, é possível que esse documento seja emitido por profissionais sem habilitação legal para determinadas atividades (atribuições incompatíveis com o serviço), por profissionais que não tenham participado efetivamente do trabalho ou ainda por profissionais legalmente habilitados, mas que não possuem a devida qualificação para a realização do serviço.

 

Paulo E.Q.M Barreto

Eng.° Eletricista e Consultor